terça-feira, 3 de março de 2026

Quando o absurdo deixa de causar espanto

Há algo profundamente perigoso acontecendo quando o intolerável começa a soar comum.


O estupro, essa violência brutal que atravessa corpos, subjetividades e histórias, nunca deveria ser tratado como algo banal. E, ainda assim, ele aparece nas estatísticas diárias, nas piadas disfarçadas de humor, nas conversas que relativizam o consentimento como se fosse detalhe.


A normalização não grita. Ela sussurra!


Ela está na pergunta automática sobre a roupa da vítima.

Na dúvida sobre “o que ela fez para estar ali”.

Na ideia de que “foi exagero”.

Na tentativa de transformar violência em mal-entendido.


E quando essa distorção se infiltra na juventude, o cenário se torna ainda mais alarmante.


Não porque jovens sejam naturalmente violentos, mas porque são profundamente influenciáveis. Eles também aprendem com o que veem. Aprendem com o que é tolerado. Aprendem com o silêncio dos adultos.


Vivemos um tempo em que a erotização da agressividade é vendida como atitude. Em que o “NÃO” é negociado. Em que a exposição do outro vira moeda social. Em que a intimidade é capturada e compartilhada como troféu.


Há uma pedagogia informal da brutalidade circulando entre nós.


E o mais grave: ela tem sido relativizada.


Quando a violência deixa de causar indignação, algo essencial da nossa humanidade começa a falhar. Não se trata de moralismo. Trata-se de limite. De dignidade. De princípio. De lutar contra a brutalização.


Consentimento não é ambiguidade!

Silêncio não é autorização!

Medo não é concordância!


A cultura do estupro não é um conceito abstrato. Ela se manifesta nas pequenas permissões cotidianas que damos à violência simbólica, às piadas que desumanizam, à linguagem que reduz corpos a objetos.


Reagir não é exagero. É responsabilidade!!!!


Se a juventude aprende, então ela também pode desaprender.

Se a cultura ensina violência, ela também pode ensinar respeito.

Mas isso exige enfrentamento, não complacência.


O absurdo não pode se tornar paisagem.


Porque quando a violência deixa de nos chocar, começamos, lentamente, a aceitá-la.


E aceitar é o primeiro passo para repetir.


12 comentários:

  1. Extremamente sério esse comportamento que estamos promovendo... uma sociedade sem respeito e sem limites!

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    1. É exatamente isso! Há uma relativação do que entendemos sobre limites!

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  2. Nenhuma palavra é capaz de expressar minha revolta e indignação para tudo que está acontecendo…Texto extremamente necessário

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  3. Quantas mais mulheres e crianças terão que sofrer até que isso seja levado com a seriedade? E quando cito crianças, a dor se multiplica, porque estamos falando de quem deveria estar protegido, cuidado, amparado. Estamos falando de infâncias interrompidas, de traumas que podem acompanhar uma vida inteira.Normalizar qualquer forma de violência é permitir que ela continue. E não, não é exagero se indignar. Indignação é sinal de consciência. É sinal de que ainda não aceitamos que isso faça parte da realidade.
    Proteger mulheres e crianças não é pauta ideológica, é questão de humanidade. É responsabilidade coletiva. É urgente.

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    1. Disse tudo: Não é pauta ideológica. É sobre a vida!
      Estamos em luta!
      Estamos em luto!

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  4. Hoje, mais do que nunca, a sociedade precisa estar atenta à banalização e à normalização da violência. Isso não aparece apenas nos atos explícitos, mas também nas pequenas falas e nos comportamentos que, aos poucos, vão dessensibilizando nossa percepção do que é grave.
    Essa banalização se infiltra nos detalhes. E é justamente por isso que é tão perigosa. Se continuarmos trilhando esse caminho, o resultado inevitável é a perda progressiva do sentido de humanidade. A brutalização não acontece de uma vez; ela se constrói lentamente, quando deixamos de enxergar o absurdo como absurdo.
    Seu texto é excelente: denso, profundo e absolutamente necessário para os tempos atuais. Que mais discussões como essa continuem nos lembrando da responsabilidade coletiva de romper o silêncio e reconhecer os sinais antes que se tornem padrão.

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    1. Muito obrigado!
      É sempre bom lembrar que quase toda violência é legitimada por um discurso, enviesado, que se forma a partir do senso, até irracional, dos bons costumes e valores tradicionais familiares.

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  5. Você viu a entrevista dada pela mãe da menina nesse caso que envolveu alunos do Pedro II? A menina chegou a pensar em tirar a própria vida. Até quando vamos culpar as vítimas?

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    1. Eu vi!
      Quando a vítima se sente culpada por ter sofrido a violência, esse é o sinal de que tudo está errado!

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